The Child Of Lov: «Gosto da “sujidade” do funk»

O véu tem vindo a ser levantado com o passar dos meses. Quando ouvi falar em The Child of Lov pela primeira vez, por alturas de Fevereiro, foi quando me chegou ao email (via editora, que eu não sou trapaceiro) este primeiro disco de Cole Williams. Nem sabia o nome. Estava tudo muito no segredo dos deuses. Fotos, muito poucas. Mas deu para perceber, pela construção - próxima do registo do hip-hop, em camadas, com vários samples - que era trabalho de um homem só. Fiquei impressionado e intrigado: escutava trip-hop, soul, algum funk - pouco evidência. Apenas ia sentindo que estava lá tudo na raiz do trabalho de Cole. Da voz, passando pelos baixos pesados até ao uso dos ritmos. Ao ouvir, deixei de estranhar a participação de Damon Albarn, DOOM e Thundercat na ajuda à produção. Mas como é que um miúdo que parecia vir do Zuidoost de Amesterdão se chegava assim a três ícones (meus) da música?

Falei com Cole Williams por Skype em meados de Fevereiro. Na altura, julgava que ia poder ver-lhe a cara, mas tapou-me a câmara. Não me disse a idade (sei hoje que tem 25). E disse que íamos ficar a conhecer-lhe a cara em breve - até por causa dos concertos (“Não há volta a dar!”). E hoje tenho certeza que  é já um dos melhores discos do ano.

Ainda se lembra de como começou a fazer música?
Eu não venho de uma família muito musical, ou daquelas em que toda a gente tocava qualquer coisa… a minha mãe teve aulas de música, de facto, em miúda. E havia um piano lá em casa. Mas era mais uma peça de mobiliário. Eu acho que comecei a interessar-me por tocar piano quando tinha uns 14 anos e, curiosamente, para criar “beats”. Eu ouvia, nessa altura, muito hip hop… acho que uma coisa acabou por, consequentemente, levar à outra, sabes?

Mas a ligação ao piano fez com que se tivesse interessado pelos ambientes clássicos e, ao mesmo tempo, pelo hip hop?
Acho que é a melhor forma de o dizer, de facto. Os primeiros discos que me lembro de fazer “diggin’” foram os discos do Stevie Wonder. Era o único disco que soul que a minha mãe tinha e era um de “greatest hits”.  Acho que a paixão dos dois mundos vem daí: de Stevie Wonder.

Os dois géneros, o da soul e funk, com o hip hop parecem misturar-se muito bem. E cada vez (re)cruzam-se mais.
A música negra vem toda do mesmo sítio. O hip hop começou, de certa forma, com o James Brown, no fim dos anos 70. O produtor Dam Funk disse uma vez que o funk é o quarto escuro da pequena casa que é a soul. É o buraco mais escuro, mais sujo, mais fedorento dessa casa. Acho mesmo que o soul, o funk e o hip hop estão todos interligados.

Portanto: o Cole começou a escrever as suas primeiras canções na adolescência. Como é que aparece o seu primeiro disco? Já o vem trabalhando há muito tempo? Não sei bem quantos anos tem…
Bem… digamos que estou com vinte e tal! Relativamente às canções, eu já tinha algumas coisas há algum tempo. Quando assinei contrato com a editora [Domino] já tinha uns 13 ou 14 – nem sei se lhe posso chamar canções – ideias. Depois disso percebi que as coisas tinham ficado sérias (risos)… quer dizer: eu nunca tinha feito nenhum concerto, misturado ou produzido. Claro que já tinha feito outras coisas, mas não pela lógica de entregar um produto a alguém a troco de dinheiro!

As coisas acabaram por ficar muito sérias… neste disco de estreia trabalhou com o Damon Albarn, DOOM, Thundercat… gravou nos famosos Studio 13 - do Damon. Estamos a falar de três indivíduos com uma visão muito definida na música que devem ter visto algo de muito especial em si. Mas como é que chegou ao diálogo com estes tipos
Ainda é um pouco louco para mim. Às vezes acordo a pensar nisso: como é que um tipo como eu acabou a cozinhar músicas com esta gente! O meu agente costumava ser o agente do Danger Mouse, há uns anos. E foi na altura em que o Danger Mouse co-produziu um disco dos Gorillaz, o “Demon Days”, que o meu agente conheceu o Damon. E foi assim que ele acabou por descobrir a minha música. Ficou intrigado, perguntou coisas sobre mim, sobre as minhas origens… e as coisas começaram a ganhar outra cor, ele foi muito hospitaleiro nos estúdios e foi incrível trabalhar com ele.

Mas e qual é a importância destes três músicos na criação do seu disco? Ensinaram-lhe muito ou apenas entraram para o processo que já tinha formatado?
Bom, eu já tinha produzido o disco. Já estava praticamente terminado. Estava bem claro o que ia ser. No caso do Damon, achei por bem dar-lhe uma carta branca para experimentar coisas na produção, “go wild”, e depois eu via se gostava ou não. E com o DOOM e o Thundercat foi a mesma coisa: dar a estas pessoas o espaço que precisavam para trabalhar e criar. É assim que nasce o melhor trabalho deles.

Há uma coisa que gosto bastante na sua forma de trabalhar: fez um disco que não é polido. Tem ruídos, é sujo. Há algum fascínio por esse conceito mais antigo, do uso de material velho?
Eu vejo o que dizes como um grande elogio, porque trabalhei com as merdas mais inúteis e baratas que consegues encontrar. Eu cresci com pouco dinheiro. Não era o típico miúdo de classe média que começou a ser DJ. Eu gosto muito do álbum “Voodoo”, do D’Angelo. É talvez o disco que eu mais ouço porque gosto do som cru do disco. E quis produzir esse som analógico, mas com o uso do computador. Foi isso que fui à procura. Gosto de me levar aos limites e uma das formas é usar os equipamentos com que é mais difícil trabalhar, porque são fracos! Com as coisas boas podemos afundar-nos em múltiplas possibilidades…

É quase uma tentação encher as músicas de pistas e de camadas.
Sim, sem dúvida. E repara: hoje as pessoas quando querem aprender a tocar guitarra vão comprar uma Fender Stratocaster logo na altura. Quando quis aprender a tocar baixo, comprei o baixo mais barato que encontrei, cor-de-rosa… custou uns 100 euros. Se conseguir tirar dali o som que estou à procura, então posso passar para os instrumentos mais caros. Mas ao contrário a equação já não funciona assim.

Sem considerarmos apenas os instrumentos – sejam Stratocasters ou Rickenbackers: agora que já fez um trabalho com esta sonoridade mais crua, o próximo passo é fazer algo mais polido ou quer marcar este conceito?
Eu gosto desta “sujidade” do funk. Aquilo que se ouvia nos discos do Sly And Family Stone: ando meio obcecado com o disco “There’s a Riot Goin’ On”: foi feito sozinho pelo Sly Stone, no quarto dele, a fazer overdub aos instrumentos! Tem um som de merda – é muito cru e acredito que a editora deve ter ouvido aquilo e deve ter dito: “o que é isto?”. Mas há ali muita honestidade. Gravar assim é a forma ideal para canalizar a minha música. É o que vou tentar fazer: acho que nem vou tentar ir para um estúdio!

Há um lado cénico que desperta muito a curiosidade sobre quem é Cole Williams aka The Child of Lov. Agora já se vão vendo algumas fotos, mas, no início, preferiu não expor a sua imagem… Porquê?
A música teve de vir sempre primeiro. Pareceu-me a coisa mais acertada sobretudo num momento em que no mundo da música há tantos exemplos de a imagem e uma cara bonita ser mais importante do que o som. Mas não vai ser sempre assim: aliás, já tenho fotos minhas em que mostro a cara. Com os concertos não dá muito para fugir, não é?

E como vão ser, então, os concertos?
Já encontrámos uma banda para tocar as canções. Agora é ensaiar bastante as músicas. Temos algumas sessões marcadas para Inglaterra, coisas de rádio e tudo mais.

Como fã, confesso-lhe que gostava que viesse a Portugal!
(risos) Adorava. Nunca estive aí, mas sei que o tempo é bem melhor do que aqui no Norte da Europa!

D’Angelo e ?uestlove.Aqui.

D’Angelo e ?uestlove.

Aqui.

Camané: “Quando o fado é bom não são precisos nem psicólogos nem psiquiatras”

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                                     (Fotos: Augusto Brázio)

Já lhe chamaram o “Príncipe do Fado”. A rainha diz-se que é Amália. E também já houve quem tenha escrito que era ele “a nova Amália”. Há melhor elogio para Camané? O fadista começou a gravar discos há 18 anos (a colectânea “O Melhor 1995 - 2013” celebra esta maioridade que em anos de fadista deve dar praí uns 300…), mas anda a sentir “isto do fado” desde garoto. E nem sempre foi com palmadinhas nas costas ou palavras elogiosas do género “ai que bonito, um menino a cantar tão bem o fado”. Mas o que lá vai, lá vai - hoje é referência para novos e mais velhos. E um dos culpados - talvez desde “Maria Albertina”? - por o fado estar na moda. Mas ele tem o truque para quem quiser perceber o fado à séria: “Servir os fados e não se servir dos fados”.

Como é que se começa a mexer num repertório de 18 anos e tirar de seis discos (de originais) os seus temas favoritos? 
A ideia de fazer a colectânea vem do David Ferreira (EMI). E foram 18 anos de muita coisa que fui fazendo. Pensei apenas que precisava de uma visão de fora e então ele e a equipa dele fizeram essa colectânea. Eu só tive de dizer alguns temas que gostaria de ver incluídos.

Era difícil para si fazer a selecção?
Sim: tirar temas, acrescentar outros, era muito difícil. Como havia muito repertório preferi não ser eu a escolher.

Mas qual foi a sensação que teve quando ouviu a escolha final?
Tive sempre a sensação que faltava “este ou aquele” fado. Por vezes, quem está de fora tem sempre uma visão mais alargada daquilo que se ouve realmente e dos temas que marcaram mais. E essa noção é diferente da minha, das minhas canções favoritas, embora aqui sejam temas de que gosto muito. Depois há outros que já nem fazem parte do alinhamento dos meus concertos, mas fazem parte do meu percurso. 

Mesmo sendo colectânea, preparou dois dois fados inéditos.
Sim, foram feitos de propósito para este disco: “Ai Margarida”, “Gola Alta” e “Ai Silvina, Silvininha”. São produzidos pelo Mário Laginha, que me acompanha no “Silvina, Silvininha”. Os outros são produzidos pelo Zé Mário (Branco).

Existe uma transversalidade neste seu trabalho de 18 anos que é a presença e o trabalho do José Mário Branco. O que é que vos une?
Muitas coisas: desde uma coisa que sempre quis nos discos, que é a sonoridade de fado – que é a minha forma de estar no fado. A visão que ele tem do fado é muito parecida com a minha. Uma coisa que acontecia há muitos anos é que ouvíamos discos de fados e eram quase todos iguais: todos tocados da mesma forma, pelas mesmas pessoas… e eu queria mudar isso. Queria ter a minha sonoridade, quase como se percebessem que era o meu disco ainda antes de começar a cantar. É a criação de um ambiente musical.

Que visão é essa do fado que partilham?
Eu cresci no meio do fado, tenho uma forma muito característica que é a de ser fadista: a honestidade e a verdade são muito importantes em quem canta este estilo. E o Zé Mário percebeu isso bem: aprendeu a gostar do fado por causa do [Alfredo] Marceneiro, tal como eu…

O Camané é daquelas pessoas que acha que o fado precisa de ser reinventado?
Isso da reinvenção ou o “novo fado” não existe. Existe fado. Como foi uma música que foi-se tornando moda, há um interesse muito grande de músicos de outras áreas que nem gostavam de fado e que agora vêm para o fado. E acham que o estão a reinventar, a acrescentar qualquer coisa. Mas para se cantar fado, é essencial ser fadista, cantar com verdade. E a maior parte das pessoas que vem de fora não tem isso. Eu nunca tive a necessidade de reinventar nada ou de acrescentar algo: faço o que tem que ver com a minha personalidade e isso faz com que as coisas andem para a frente. Arrisco coisas, mas o fado está sempre presente em mim. O fado é o filtro. Mas isso é uma mais-valia que tenho desde miúdo. Ajuda-me a não desvirtuar esta música. Há um estilo cá dentro.

Um fadista não é só voz?
O fadista é tudo. É difícil explicar o que é o fadista e o que é o fado. Mas sente-se.

Ontem, quando estava a preparar esta entrevista, estava com a televisão ligada e passou uma entrevista com o Cristiano Ronaldo – o símbolo do futebol português. E perguntaram-lhe se, para se ser futebolista, é mais importante ter talento ou ser trabalhador. Eu pergunto o mesmo ao símbolo do fado: mais talento ou mais trabalho para se ser fadista?
O talento é super-importante, mas vem da nossa personalidade. Temos que ser coerentes trabalhar esse talento. O talento é um jeito qualquer, mas depois é preciso que a nossa personalidade e reflexão na vida seja em função desse talento. é uma união de muitas coisas: o trabalho, o talento, a reflexão – o estar focado.

A reflexão é o que o leva a perceber o que pode e deve cantar?
É muito importante não só no fado, mas também na arte e se quisermos até no futebol! O futebolista tem de ser inteligente, interiorizar tudo…

E no fado, passa por interiorizar aquilo que está a cantar?
Interiorizar e - das coisas mais importantes – ser humilde para aprender. Servir os fados e não se servir dos fados. Para mim cantar é como beber água ou respirar: faz parte da minha vida. Não sei fazer outra coisa. E isso é importante que seja feito sem exibicionismos, evitar ao máximo que os egos se sobreponham para entregar as palavras e as mensagens a quem nos ouve. E isso só se consegue se não nos servirmos do que estamos a fazer.

Mas não se se serve do fado de forma pessoal, para se encontrar, para reflectir, meditar…
Não… sempre achei que quando o fado é bom não são precisos nem psicólogos nem psiquiatras. Claro que a reflexão, os sentir o fado, as poesias, mudam a nossa forma de pensar e a sentir de outra forma. Quando o fado é triste faz-nos sorrir e quando é alegre faz-nos chorar. É uma tristeza que nos faz reflectir.

Tem que sentir primeiro em si o que o fado diz para depois o poder cantar?
Acontece mais ou menos… por intuição. O que consigo, muitas vezes, é reflectir a interpretação e não ir tão fundo na minha vida pessoal. Mas, obrigatoriamente acabo por ir. Não procurar os factos, mas antes os sentimentos. E esses sentimentos têm que ser adequados: a intenção, o texto, o estado de espírito, o ambiente que o fado tem de ter… O Zé Mário usa muito a expressão “registo emocional” e pedia-me para ir à procura dele. Uma vez estava a cantar um fado do Pessoa: “Deixei atrás os erros do que fui, Deixei atrás os erros do que quis. E que não pude haver porque a hora flui”: isto fazia parte da minha vida, mas é uma coisa do passado. Há uma aceitação. E a primeira vez foi complicado cantar aquilo: não podia estar preso, sem dramatismos; tinha de ser mais desprendido e natural. Tinha de cantar com o registo de uma coisa que já passou.

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Há fados que são mais difíceis de cantar por causa dessa ligação emocional que se consegue ou não se consegue criar?
Sim, mas normalmente canto aquilo que com que me identifico, que me faz sentido cantar. Há determinados fados que simplesmente não me fazem sentido cantar. Intuitivamente consigo olhar para uma letra e sentir que ela é boa ou não. Depois há as que eu acho que são boas e estou enganado e preciso de alguém de fora para me convencer. 

Os jovens fadistas costumam pedir-lhe conselhos? 
Sim, eu sempre me relacionei muito bem com as pessoas do fado. Uma das coisas que sempre me agradou foi quando comecei a chegar ao público mais jovem.

O que costuma dizer a quem quer ser fadista?
Eu costumo dizer que é devagar. É preciso crescer nisto, aprofundar, conhecer o fado no seu todo. O fado não é só cantar os fados da Amália: é preciso arriscar, construir repertório. Conhecer o fado tradicional para se construir um estilo próprio. E às vezes demora-se anos a fazer com que isso aconteça!  Não queiram sucesso rápido, porque isto é uma coisa para se ir construindo.

Tem noção de quando é que se tornou fadista? Foi há 18 anos quando fez o primeiro disco? Foi antes? Foi depois?
Desde miúdo que senti que assimilei isto do fado. Mas houve muito trabalho feito desde aí: crescimento, influências e referências. Das coisas mais importantes foram os anos em que cantei nas casas de fado, sobretudo entre os 17 e os 30 anos. Depois deixei de cantar em casas de fado… mas os meus amigos não se identificavam com a música que eu cantava e às vezes até era gozado na rua por ser fadista. Isto há mais ou menos 30 anos. Mas sempre ouvi com atenção as opiniões dos meus colegas, filtrei tudo, sempre com uma grande consciência e vontade de ser eu mesmo. Mas nunca descurei de ouvir os mais velhos: não era com palmadinha nas costas como é hoje… mas foram os anos em que aprendi mais e ainda hoje aprendo.

Essa questão de gozarem consigo quando era miúdo por ser fadista: foi algo que lhe deixou marcas?
Boas e más. Às vezes, quando me lembro, irrita-me um bocadinho. Eu ouvia as músicas todas que os meus amigos ouviam, mas depois escondia-me a ouvir os fados, baixinho. Ninguém sabia, nem os vizinhos. Também o Frank Sinatra, o [Charles] Aznavour, a 
Billie Holiday, [Tom] Jobim, Chico [Buarque], João Gilberto… Era uma coisa muito secreta. Mas eu era o esquisito, o nerd de qualquer coisa: até nos professores… havia um desdém enorme face ao fado. 

Foi preciso ser forte para cantar o fado.
Sim. Mas eu sempre acreditei no fado como uma música de grande qualidade. Os grandes intérpretes portugueses são fadistas. O preconceito era de tal forma que as pessoas não conseguiam reconhecer isso. Felizmente, hoje já o fazem. O fado não é uma música de cantiguinhas ligeiras: é coisa pesada, rija, forte, com qualidade.

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Diz que “o fado vive muito da comunicação, da palavra e de uma empatia grande entre quem ouve e quem canta.” Consegue sentir as emoções do público quando canta?
Uma das coisas mais impressionantes que vejo e sinto quando canto é o silêncio do público. É impressionante. Aquilo pára tudo. Isso não me acontecia nas casas de fado… muitas vezes eram turistas, que iam pela primeira vez às casas de fado, outras vezes jantavam ao mesmo tempo. Lembro-me de ter cantado com três japoneses à minha frente a dormir de boca aberta e a ressonar. Mais tarde vim a saber que vinham de Tóquio a Lisboa, sem dormir, metem no autocarro e levam-nos às casas de fado. Claro que jantam e adormecem! É impossível isso não acontecer! Nem o Pavarotti os acordava.

Tem saudade de cantar nas casas de fado?
Não. Eu canto onde me chamam para cantar e onde eu acho que posso fazer o trabalho como gosto. Das casas de fado, quando tenho saudades, vou e canto. Mas saudades do trabalho de uma casa de fados - o ir todas as noites para os fados - isso não. Esse era um trabalho que me ia impedir o outro lado: pensar e reflectir no disco que vou fazer, trabalhar com os músicos, ter tempo para concertos fora e dentro de Portugal. Mas é um trabalho lindíssimo: aprendi muito lá e tenho um grande respeito.

“Um concerto nosso no Cacém é igual a um concerto nosso no Pukkelpop!”

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Há umas semanas, nas vésperas da invasão da editora Enchufada à Casa da Música, no Porto, tive oportunidade de estar à conversa com o DJ RIOT - dos Buraka Som Sistema - sobre a festa no Porto, da forma de aceitação eclética das canções (e festa) dos Buraka, mas também sobre as relações de amizade e de música dentro da editora - casa de nomes como KKing Kong, Nave Mãe, Diamond Bass ou Marfox - e das metas de produção dos próprios BSS. Agora que o “Komba” está a entrar na recta final, Rui Pité desvenda como serão os próximos meses. 

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O “take over” da Enchufada à Casa da Música justifica-se por quase todos os artistas seguirem a mesma linha musical?
Se os ouvirmos bem a todos, há uma linha muito forte que os une. E por isso também foram escolhidos. Mas há caminhos diferentes: um set de Nave Mãe é uma viagem um pouco maior e imprevisível do que um DJ set de Diamond Bass, por exemplo.

Mas as bandas da editora conseguem agradar o público quase de uma forma transversal.
Sim, o acampamento da Enchufada, dos Buraka som Sistema, já deram provas de que conseguem animar a e pôr tudo a mexer. E não é só o puto de 16 anos ou o hipster de 37 que consegue avaliar isso: pessoas que estão ligadas ou à Casa da Música ou Gulbenkian conseguem avaliar isso e perceber que podemos fazer noites bem programadas.

Acham que essa aceitação deve-se ao facto de a vossa música se manter tão fiel às vossas raízes enquanto Buraka Som Sistema e àquilo que a banda representa?  
No nosso caso particular - e por muito cliché que soe - sempre fizemos aquilo que gostamos. Eu e o João [Barbosa] começámos a tocar juntos em bandas rock aos 15 e 16 anos e nunca tivemos as limitações de fazer som só de um estilo. E quando conhecemos o Kalaf e o Andro [Conductor]  pensavam exactamente da nossa forma. Sempre fizemos a música que quisemos e gostámos. Um concerto nosso no Cacém é igual a um concerto nosso no Pukkelpop! Se calhar falamos é um bocadinho mais em inglês. Creio que a coisa bateu mais foi pela frescura. Cá em Portugal havia a associação ao kuduro; lá fora era apenas “dance music”. Lá fora nunca nos chamaram “kuduro progressivo”.

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Essas experiências sociológicas têm alguma influência no que fazem ou continuam a fazer, simplesmente, o que gostam?
Sem dúvida. O [disco] “Komba” é resultado de vários anos de estrada. Continuamos a fazer o que gostamos porque isso é o que somos, mas as influências e a experiência de vida das pessoas já mudou.

Como é que se relacionam hoje em dia com as canções do disco “Komba”? Já ganharam uma nova vida?
Têm vindo a ganhar mais uma nova vida. E sobretudo para este concerto da Casa da Música e para os outros que se seguem  decidimos marcar ensaios especiais e alterar um pouco a dinâmica do concerto ao vivo. Estamos a sentir necessidade de fazer música nova, ir para estúdio acabar um álbum novo. Mas a vantagem de ter um álbum como o “Komba” é que ainda há bastantes variantes e novidades no disco para que possamos fazer um show fresco. Se estamos a digerir o “Komba”? Estamos na sobremesa! Mas é uma sobremesa muito boa, um docinho da avó.

Ao dizer que estão com vontade de acabar um álbum novo quer dizer que já o começaram?
Sempre! Posso dizer que, ao contrário de uma banda de indie rock progressivo, a vantagem de fazer música no computador é essa: assim que acabamos um disco, cometamos logo a pensar num novo. Enquanto produtores estamos sempre a fazer músicas e temos um “saquinho” onde vamos pondo o que fazemos. Seja bom ou mau, estamos sempre a trocar ideias. E ao final de um tempo, há sempre dois ou três loops engraçados que podem ser a direcção para onde queremos ir agora! E há muitas coisas que vamos descobrindo: muitas vezes produzimos algo que está mais à frente do que nós próprios. Inventam-se coisas a que não se dá o real valor, não se está ainda naquele nível… mas depois há uma altura em que as coisas fazem sentido. É o caso do Zouk Bass: é uma direcção que vai estar presente no novo trabalho dos Buraka Som Sistema, mas não será a única … Mas quando digo acabar um álbum novo é juntar-nos todos e ir para um estúdio a ficar a trabalhar afincadamente.

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É quase como trabalhar num laboratório a fazer experiências químicas: há uma altura em que os cientistas também chegam a fórmulas que não sabem bem muito o que é aquilo.
Exacto! Curioso que tive uma banda com o João Barbosa que se chamava Fusion Lab e a lógica continua a vir daí: “tenho aqui isto, vê lá o que dá”. Porque há alturas em que se pode bloquear! Houve muitas músicas no meu computador que iam para o lixo e que os outros disseram: “não, não” e que viraram single! E nos computadores deles a mesma coisa! Estamos sempre a ser inspirados pelos nosso colegas, seja pelo Andro, seja pelo João, seja pelo Kalaf… e há copywrite para usar aquilo sem pedir licença a ninguém!

Fotografia por Ana Gilbert, João Messias e Zumbi Ya (do site da Enchufada)

Tim Maia sobre a produção musical independente

“É como quando você está com aquele tesãozinho e pensa em chamar uma puta, mas não quer gastar dinheiro. Você não chama a puta, toca uma punhetinha, goza e não paga nada - mas também não come ninguém. A produção musical independente é mais ou menos isso”

#génio

“Nomad”, de Bombino. O blues-rock das mil-e-uma-noites. Sem encalhar nas dunas.

“Nomad”, de Bombino
O blues-rock das mil-e-uma-noites. Sem encalhar nas dunas.


“Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.”

Paixão, Pedro. “A Noiva Judia.” Pedro Paixão.

#redballproject, aqui. 

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Pam Grier.
Os melhores do mundo

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