Cícero: “Até aos 23 anos nunca tinha saído do Rio de Janeiro”

Hoje, com 28 anos, Cícero Rosa Lins é um dos nomes mais entusiasmantes da nova geração de artistas do Brasil. Carioca de gema, tornou-se adorado em Portugal pela sua poesia subtil, introspectiva, cantada com guitarras delicadas e arranjos pop. E de distribuição gratuita. É Música Popular Brasileira, seja lá o que isso for. Está em Portugal para mostrar “Canções de Apartamento” e “Sábado”, os seus dois primeiros discos.

image

“Canções de Apartamento” foi um disco gravado no conforto de casa, lançado de forma independente e gratuita. Acabou por se tornar um sucesso. Isso tornou-se uma pressão para a composição deste último “Sábado”?
Acho que não. Na verdade, tentei fazer o disco não considerando muito a pressão. Embora o “Canções de Apartamento” tenha tido uma boa aceitação, ainda sou um artista pequeno por isso tenho uma liberdade maior para decidir quais os passos que quero dar. Não tive pressão de público, editora, e escolhi as canções que tinham mais que ver com o momento.

Mas poderá ter alterado a sua forma de olhar para a música? Isso nota-se neste “Sábado”?
Na verdade, o que acontece é que fiz o meu primeiro disco e depois comecei a ouvi-lo. Toquei muito ao vivo, fiz clipes e comecei a ouvir as músicas. O que tive foi uma vontade natural de mudar algumas coisas, alguns padrões, que vi que funcionaram, mas que não era preciso repetir no segundo. Os discos representam-me como indivíduo e por isso parecia-me mais interessante se os discos denotassem a minha evolução estética de composição. Fiz algumas coisas no primeiro disco que comecei a pensar que poderia fazer diferente no segundo, sobretudo nos aspectos de som e fluidez do disco.

E pode dizer-se que foi uma grande lição para si enquanto compositor, enquanto técnico e produtor?
Sim! Com certeza. Na verdade, eu fui o produtor, engenheiro de som, compositor e intérprete. Embora pareçam ser elementos independentes, caminham juntos. Todos confluem para uma mesma sensação. Em cada uma das áreas fui-me interessando cada vez mais. Naturalmente fui-me permitindo fazer, exercitar o interesse. O carisma do “Canções…” talvez venha daí, por ter feito coisas que me apeteciam fazer naquele momento. Eu já tinha gravado com uma banda de rock e o sentimento e formato é bem diferente.

As canções do Cícero têm um lado muito poético. Precisa de se focar individualmente em cada uma das áreas, nas mais técnicas e de composição, ou consegue fazer tudo ao mesmo tempo?
Não, são coisas distintas. E no “Sábado” ainda são mais distintas! São interesses que tenho em paralelo, sem hierarquia entre eles, mas que têm o seu próprio tempo. A engenharia de som, por exemplo, é um momento de produção: sentamo-nos e, esteticamente, vamos identificando-nos com o som, equalizando até que ele soe a agradável. A partir disso, fica resolvido. A poesia ou a palavra é uma outra escala de tempo: às vezes uma coisa demora meses ou semanas até que aquilo ficar bom.

Este é um disco com um sentimento mais recente? Mostra mais aquilo que o Cícero é hoje?
Exactamente. Muita coisa mudou. Na verdade, foi uma mudança global na minha realidade. Apresentei-me como músico, toquei, viajei, mas também a ver com a mudança de atmosfera no Rio de Janeiro. Mudança no som, nos valores, nos assuntos. Tudo isso afecta os indivíduos, mas como forma de mostrar que estou relacionado com todos estes assuntos – e não porque vejo isto como uma carreira, ou como um produto – acho que a criação de um disco tem mais que ver com a satisfação pessoal e que me represente.

image

O Rio de Janeiro também é uma figura central dos seus discos?
Na verdade é porque eu moro aqui e até aos 23 nunca tinha saído daqui. E tinha saído poucas vezes do meu bairro. Isso imprime nos discos a realidade dos lugares de onde eu venho, mesmo que não o queira fazer. Mas o Rio de Janeiro é a minha casa. Embora já tenha viajado e conhecido aspectos agradáveis de outros lugares, levo este lugar comigo.

Como é que se relaciona hoje com o Rio?
É difícil. O Rio de Janeiro está num momento confuso. Histórica e socialmente falando. Tem muitas coisas, diametralmente opostas, a acontecer ao mesmo tempo. Há um certo optimismo de mercado e euforia, talvez porque o Rio é um pouco hype para o mundo, mas também há uma perspectiva preocupante sobre os caminhos que a cidade vem traçando nos últimos 30 anos, anteriores a esse hype. Levam o Rio para um lugar que, quem é natural do Rio, vê que não é um Norte muito bom. É para onde está a apontar a euforia. Ficamos numa situação de dúvida, insegurança, o que é que vai ou não ser bom para nós. Vemos acontecer coisas boas em detrimento de coisas ruins que acontecem noutros lugares. Há um certo desconforto. É o que tenho notado na minha órbita que vem desse negócio de não sabermos se estamos alegres ou tristes.

E o seu refúgio é o seu apartamento, aquele onde fez as suas Canções de Apartamento? É onde se sente mais seguro?
Não! Na verdade, isso foi uma passagem. O “Canções de Apartamento” vem como uma certa crítica, uma opinião, sobre as formas de se enxergar todas essas questões. Eu morei até aos 22 anos numa casa muito grande, com quatro cachorros, quintal, e quando fui morar para o meu apartamento há quatro anos, esse contraste gerou aquele disco. O contraste de sair e viajar, conviver com os meios urbanos do Brasil, gerou o “Sábado”. O meu conforto é mais a minha música do que o meu apartamento.

Hoje discute-se muito a MPB, porque há tanta gente talentosa a escrever música, claro. Mas aquilo que o Cícero faz, o que faz o Momo, o Wado, o Marcelo Camelo, os Guardia Nova, o Silva, a Mallu Magalhães, entre tantos outros, ainda se chama MBP? Ainda existe e é o que fazem?
Eu não sei porque, na verdade, a MPB nunca foi muito clara. Transformou-se num género musical durante uma época ou duas, especificamente por causa do mercado e da indústria, que precisava de um nome para veicular. Mas a história da música que se diz MPB é muito ampla, em vários aspectos. Eu - e muita gente - tenho feito música brasileira sem o rótulo da MPB. Não me preocupa muito: posso dizer que sou MPB porque faço música popular e porque é brasileira. Embora o popular seja relativo!

Acha que a aceitação em Portugal tem que ver com os discos serem de distribuição gratuita?
Não sei. Acho que pode ser, mas há tanto disco para distribuição gratuita aqui no Brasil e eu nem sequer fui o pioneiro nisso. Mas acho que essa tendência é algo que vai abrir muitas portas para a música brasileira.

É algo que pensa continuar a fazer?
É uma das minhas convicções de agora: conseguir manter isso. Mas para o download ser gratuito, eu preciso de bancar esses discos. E à medida que vou evoluindo artisticamente, esses discos vão necessitando de um pouco mais de produção e isso sozinho é difícil de fazer. É meio uma negociação interna! Mas tenho conseguido uma identificação humana e individual com a minha música e não massiva e mercadológica, sem ser uma entrada industrial na vida das pessoas. Esse caminho permite-me mais liberdade e satisfação. O download grátis permite não exigir muito da situação, mas antes apresentar-se dentro dela.

(entrevista completa que serviu de base ao artigo publicado no jornal Metro)

Samuel Úria: “Às vezes faz-me falta ser o puto que era em 2003”

image

Samuel Úria vai estar esta sexta-feira, dia 28 de Fevereiro, a recuperar as canções do seu primeiro disco. “Caminho Ferroviário Estreito” foi editado em 2003: um trabalho que era para chegar, “no máximo” a amigos que “Sami” que não via há muitos anos. Agora fá-lo renascer num concerto na ZDB que pretende registar, ao máximo, o feeling de há 11 anos.

Esta é a conversa completa que deu origem a um artigo no jornal METRO.

Calculo que quando começaste a fazer canções não pensavas em estar uns 15 anos depois a revisitar o primeiro disco. Algo que fizeste de forma tão amadora, no conforto do lar, quando o “DIY” não era tão profissional como nos dias de hoje.
De todo. Hoje em dia, para a escrita de canções, até tenho tenho de me refugiar no estado mental da altura, sem qualquer tipo de expectativas e sonhos no futuro da música. Eu fazia canções que, quanto muito, iam chegar a amigos que conhecia na altura. Não havia qualquer tipo de ligação quer ao profissionalismo quer a uma carreira. Hoje em dia, é uma espécie de refúgio para conseguir inspiração instantânea.

Então o estado mental com que hoje constróis as canções continua a ser o mesmo de 2003? Mesmo que a conclusão seja outra?
Sim, a conclusão é outra. E as ferramentas também. Mas continua a haver a mesma base para compor, o esqueleto surge da mesma forma. O que há são processos de alguma complicação melódica ou riqueza, que às vezes me parece desnecessária, que hoje em dia me aparece de uma forma mais natural porque já fiz coisas que me mostraram caminhos diferentes, em termos melódicos, de arranjos. Eram coisas em que dantes não pensava. Muitas vezes até tenho de dar uma “pancada” na cabeça para voltar à simplicidade e frescura de processos que tinha nessa altura.

Ainda te lembras de como nasceram as canções desde disco de 2003? Ainda tens isso presente ou as memórias ficaram apenas naquilo que são as canções?
É difícil recordar tudo de atacado. O disco, apesar de ser de 2003, reúne coisas que foram escritas e gravadas talvez entre 1998 e início de 2003. Nesse espaço considerável de tempo, escrevi muito e ficou muita coisa de fora. Até eu próprio, ao ouvir o material que não usei, fico curioso em perceber como é que as que ficaram chegam ao disco. Não tenho mesmo ideia do critério de selecção para as 15 canções… Nem o porquê das canções, nem o alinhamento.

De uma forma um pouco mais pessoal: o Samuel de hoje é muito diferente do de 2003?
Creio que sim, que é diferente. Quando lanço aquele disco  tinha outra profissão, tinha acabado de me casar… em termos musicais, muitas vezes quando ouvimos as coisas que gravámos há 15 anos podemos sentir uma vergonha enorme, quase como se tivéssemos a olhar para fotografias antigas e lidar com o nosso passado. Mas estes dez ou 11 anos já se tornaram em algo nostálgico e não embaraçoso. Já consigo olhar para aquele tempo com um embelezamento natural, saudade de trazer um sorriso ao ouvir as gravações antigas. E apesar de notar uma evolução na minha vida, às vezes faz-me falta ser o puto que era na altura: acabado de sair da cena do punk, deslumbrado com a possibilidade de escrever canções. Há letras terríveis que nunca faria hoje, mas nota-se esse deslumbramento que era fixe ter nos dias de hoje. Não houve só evolução: há coisas para as quais gostava de poder regredir.

É algo que tens defendido sempre: voltar a fazer canções num formato mais caseiro.
Entre o “Nem Lhe Tocava” e o “Pequeno Medo do Grande Mundo” lancei um disco feito em casa, que é uma ponte próxima para este primeiro disco, gravado num só dia. Musicalmente existe uma ligação grande e até a maneira como o fiz procurava a que a coisa “soasse” em alguns momentos, que tivesse aquelas falhas, com a despreocupação caseira, com as coisas a soar a lo-fi.

É um certo síndrome de Peter Pan na forma de olhares para a tua música.
São coisas que observo à posteriori. Quando escrevo canções não penso tanto nisso. Quando estou a arranjá-las em disco é que faço esse excesso de  teorização das canções. Mas o rumo surge por questões objectivas, entre as questões estéticas e estilísticas. A origem é sempre a mesma, depois a roupagem e a maneira como condenso as coisas em disco é que já passa por todo esse lado teórico e a “rezinguice”.

Este concerto vai recuperar o formato mais sujo, a soar a esse período de 2003, ou será mais limpo e actual?
Há dias tive um ensaio e fiz questão que fosse na minha sala de estar. Não quis levar para o estúdio de ensaios, não me fazia sentido. Ensaiei com os instrumentos que tinha em casa, um teclado Yamaha péssimo… não deve ser o que vamos usar, mas quis tocar com ele. E foi uma coisa muito “aberta”, não esteve cá toda a gente que vai tocar na sexta-feira, para que possam chegar lá e sintam que estão a escutar a música pela primeira vez. Pelo menos, pela minha vontade, vai soar ao disco, mas também aos concertos da altura: “impreparação” e falta de profissionalismo. Pode ser um desleixe que soa a ofensivo a quem for ouvir, mas assim faz justiça e respeita o disco. Quanto muito, o que vai acontecer com som mais polido, talvez seja a forma de cantar: não desenvolvi técnica vocal, mas fui obrigado a cantar tantas vezes que ganhei outra forma de interpretar. Acho que canto menos pelo nariz. Não posso fingir que isso não aconteceu e ir cantar à Tim dos Xutos.

No site da FlorCaveira, a descrição do disco termina com “Paz à Alma de Rui Veloso e Jorge Palma”. O que significa isto?
(Risos) Não sou o autor da frase, mas remonta ao tempo em que a FlorCaveira existia e que não havia nenhuma expectativa em viver da música. Brincávamos todos um bocadinho a uma editora de guerrilha. Às vezes definíamos com frases de provocação aos artistas e quase que nos queríamos meter no jogo de autores que não eram do nosso campeonato – se hoje não têm, na altura tinha o lado de brincadeira. Essa definição surge numa altura em que começamos a ter alguma cobertura de imprensa, mas ajudou a manter esse espírito de guerrilha e ironia, como se tivéssemos na floresta timorense à espera de atacar o exército indonésio (risos).

Sensible Soccers: Há electrónica experimental na aldeia

image

É em Fornelo - numa freguesia do concelho de Vila do Conde - que está uma das bandas mais interessantes da actual música portuguesa. Instrumental, apenas. Mas que toca tanto, senhores. E tanto nos faz dançar.
Tudo indica - pelo menos foi o guitarrista/baixista barbudo da banda me disse há umas semanas quando falei com ele para o jornal METRO - que o novo disco dos Sensible Soccers, “8”, vai estar disponível no próximo dia 1 de Fevereiro. Há quem já o tenha ouvido num espectacular artigo de fita - eu comprei a minha cassete no memorável concerto do Musicbox - e ouvi-o no Walkmen de uma das pessoas mais fixes do planeta. Sou um sortudo do caraças.
Agora leiam um pouco da conversa que fiz com o Emanuel.

Uma das coisas que sempre me deu a impressão na vossa sonoridade e na forma de trabalhar dos Sensible Soccers é que parece que nunca estiveram muito dependentes do lançamento de discos. Parece-me que são mais uma banda que gosta de se focar mais em músicas do que propriamente no conceito de um trabalho de longa-duração.
As coisas aconteceram um pouco por acidente, sem grande planificação. Muito do que aconteceu nos últimos quase três anos foram consequências de umas e outras coisas. Também a forma de fazer música foi afectada por isto. Este disco que vai sair foi mudando e ganhando formas. Numa fase inicial pensávamos estar a trabalhar num EP, mas demos por nós com mais tempo de música para incluir antes num disco. Porque os temas nos obrigam a trabalhar dessa forma.

É o caso de “Sofrendo por Você”?
É um exemplo. É um tema que foi sendo trabalhado isoladamente ao longo de um ano. Demorou muito, muito tempo até ficar consolidado e pronto para editar. Passou por muitas alterações e isso tem que ver com as nossas condicionantes enquanto banda. Por exemplo, com a necessidade de ter melhor para trabalhar e gravar a música que fazemos, que nos obrigou a que este processo fosse tão longo apenas para um tema.

Também se inclui a razão de depurar aquilo que é o vosso som e a forma como vêm a vossa música? Falo da criação de uma identidade.
Nós nunca nos limitámos a fazer músicas de um só género. Há o exemplo do primeiro EP que era uma verdadeira manta de retalhos. Depois um mini-EP com duas pequenas canções. E os próprios concertos em que também não exactamente igual ao que estava nas gravações. Isto cria condições para que as pessoas possam esperar alguma variedade nossa. Acredito que essa identidade de que falas também se vai sentir neste novo disco.

A banda gosta de salientar a ligação à ruralidade. É na sala de ensaios é em Fornelo, Vila do Conde, que criam a vossa pop psicadélica e experimental. Não sendo música onde se ouçam passarinhos, ovelhas ou sinos da igreja, há uma certa tranquilidade que se mistura com o espírito de festa de aldeia.
Eu nunca sei muito bem atribuir uma influencia audível dessa condição de estarmos a trabalhar no meio rural. Tem influencia se calhar noutras coisas, como os nossos timings de trabalho, sem precipitações e com calma. Teve muita influencia na fase inicial. Antes de ensaiar aqui em Fornelo estávamos no Centro Comercial Stop, no Porto – que foi sendo quase tomado de assalto por dezenas de bandas. É uma instituição na realidade do Porto, mas tem outros problemas associados, como ter várias bandas no mesmo sítio. Não sei se teríamos conseguido ir muito adiante como banda tivéssemos lá ficado. Aqui, em Fornelo, criámos um balão de ar que nos permitiu ganhar novo ânimo. Só depois disso é que surgiu algum reconhecimento.

Mas têm tocado muitas vezes ao vivo e até em eventos de grande nome como o "Boiler Room" da Red Bull Academy, ou no festival Paredes de Coura. Os espectáculos também têm influência na vossa criação sonora?
Servem para testar coisas e, sobretudo, em músicas não-editadas para depois tomar decisões. O que teve mais influência em nós – e porque não estávamos a contar com cerca de 50 concertos no primeiro ano e pouco – foi ganhar um pouco mais de domínio naquilo que estamos a fazer.

image

image

E o novo disco? Entretanto já há datas para a edição?
A data oficial de edição é 1 de Fevereiro. Mas haverá oportunidade de ouvir as canções antes disso, mas noutro formato: uma cassete que vai estar à venda nos nossos concertos. Subvertemos um pouco a ideia do “advance” com este formato que me parece que está a regressar. É um formato bastante apetecível porque também é barato, permite autonomia e fazer auto edição – apesar de ir sair através da PAD e Groovement.

E como se vai chamar? Vão revelar ou os Sensible Soccers vão fazer segredo como os clubes de futebol querem fazer na altura do mercado de transferências?
Bom, quando comprarem a cassete vão saber… Nesta altura queremos deixar em segredo. O disco vai ter alguns convidados que são pessoas próximas de nós musicalmente: Astro Boy (Luís Fernandes), André Simão (Dear Telephone e La La Ressonance) e Pedro Correia (baterista dos peixe:avião). Eles e muitos outros tiveram uma importância fulcral ao emprestar-nos material para podermos gravar em casa ou em estúdios. São múltiplas colaborações.

A qualidade do som das cassetes, o formato analógico, dá um outro efeito ao som que vocês fazem?
Acrescenta um bocadinho de sujidade e um ruído específico, até porque a fita ao fim de algum tempo começa a degradar-se, como as cassetes que tínhamos nos anos 90. Mas a meu ver, nos dias de hoje, o público comprador de música continua a comprar mais por uma perspectiva de coleccionismo e não tanto pela forma de escutar música. A forma de ouvir não deixa de ser o digital, o computador.

image

image

ndr: Por aqui já cá canta uma cassete do novo disco dos Sensible Soccers. Chama-se “8” e foi adquirida por cinco paus no concerto que fizeram há uns dois meses no Musicbox, em Lisboa. Olhem que bonita:

Há um par de meses encontrei-me com o Kalaf Angelo para uma boa dose de conversa sobre uma série de coisas e não só sobre os BURAKA SOM SISTEMA. Ou só sobre o seu trabalho como escritor. Fundamentalmente, quis perceber qual é a opinião que tem sobre esta história da cultura lusófona.

O resultado foi muito mais externso do que estas cinco páginas da revista África Today - creio que não devem encontrá-la por cá. Mas é um suminho bem bom daquilo que o rapaz me disse.

Havendo interesse, conheçam-no um pouco melhor.

"Se o Lee Harvey Oswald fosse vivo, talvez fosse um blogger extremista "

image

Will Rothhaar é o actor que interpreta, em “Killing Kennedy”, Lee Harvey Oswald, o homem que a 22 de Outubro de 1963 disparou sobre o presidente dos EUA, John F. Kennedy.
Foi há 50 anos e é um caso que ainda hoje levanta muitas questões: quem esteve por trás deste atentado? Quais os motivos? Lee Harvey Oswald seria, também ele, morto dois dias depois.
"Killing Kennedy", que passa domingo, dia 17 de Novembro, no National Geographic Channel, 22h30 (repetição na sexta-feira, dia 22 de Novembro, às 21h30), tenta desvendar alguns mistérios desta história, mas, primeiro que tudo, mostrar o outro lado de Oswald e também de JFK - interpretado por Rob Lowe.

Esta é a conversa completa com Rothhaar e que serviu de base ao artigo publicado no jornal METRO de 15 de Novembro de 2013.

Qual era a ideia que fazia de Lee Harvey Oswald? A mesma de quase toda a gente? Um simples assassino?
Eu fui aprendendo coisas sobre este assunto desde miúdo. Os meus pais são grandes advocates do JFK, cresci em Dallas, a ir à Dealey Plaza, ao depósito dos livros… sabia muito sobre o tema. Esta oportunidade foi uma bênção, mas também o completar de um ciclo. Já sabia algumas coisas sobre o Oswald, mas há tão pouca informação sobre ele… Sabia quem ele era, mas não o suficiente, portanto investigar o passado deste tipo foi uma jornada para mim.

Como decidiu retratá-lo? Foi à procura de alguma humanidade no assassino?
Completamente. Era o meu primeiro objectivo e também o do realizador, Nelson McCormick. Pensámos sempre que queríamos mostrar o lado humano desse homem, porque foi sempre apresentado como um vilão. Toda a gente é rápida a criar julgamentos, mas depois não têm tempo para prestar atenção à razão central dos seus motivos.

Os julgamentos populares são feitos com muita velocidade. Acha que este filme pode mudar a opinião das pessoas relativamente a Lee Harvey Oswald?
É uma possibilidade, apesar de ser muito difícil mudar as mentes. Mas este trabalho serve, pelo menos, para que seja dada essa oportunidade. Espero que tenham uma maior percepção de quem foi este tipo.

Apesar de ser um filme documental, há sempre um lado sentimental e um apego do actor à personagem que pode vir ao de cima. Como foi esse desafio? 
Demorou-me muito tempo até conseguir entrar na mente do Lee Harvey Oswald. Vi-o sempre do ponto de vista exterior, mas a tentar entrar na cabeça dele. Os meus pais ajudaram-me muito neste trabalho: houve um dia, estava ao telefone com o meu pai e tivemos uma conversa muito interessante. Dei por mim a reflectir na minha sorte por ter sido criado por quem fui, por ter crescido num lar com muito amor, sempre nos protegemos. Comecei a pensar nisso e depois a pensar no Lee e na forma como ele cresceu sem nada disso. Faltou-lhe amor em criança, nunca criou raízes em lado nenhum, nunca conseguiu ter amigos… Por um momento fiquei assaltado por uma tristeza profunda, com um sentimento de compreensão pelo tipo. Como difícil foi crescer dessa forma? Foi nessa altura que consegui olhar nos olhos da personagem e percebê-la. A partir daí, senti-me no ponto certo para o interpretar. 

image

Sem querer justificar acções, acha que hoje é possível perceber melhor os motivos daquele acontecimento do dia 22 de Novembro de 1963?
Os seres humanos são criaturas interessantes e ninguém sabe daquilo que é capaz até as coisas acontecerem. Não sei se é possível ser justificado, porque cada um tem as suas opiniões e é assim que deve ser, mas penso que ver a vida de Lee Harvey Oswald ganhar vida no ecrã vai permitir às pessoas um conhecimento dos motivos. Era essa a ideia e espero que tenhamos conseguido.

Como seria se este caso tivesse acontecido hoje?
Seria diferente. E tive essa conversa com o McCormick há umas semanas: se o Oswald fosse vivo, talvez fosse um blogger extremista ou algo do género. No fim de contas, a falta de amor e atenção de que foi vítima em miúdo seriam compensados com a atenção que foi o que ele sempre quis. Aposto que teria opinião muito forte sobre tudo e teria um pequeno grupo de seguidores a prestar-lhe atenção. Essa necessidade de atenção estaria saciada, talvez.

É uma boa perspectiva. E, hoje em dia, se calhar há muitos “Oswalds” por aí, mas que não chegam a pontos extremos.
É um problema quando existem estes vilões que parece que são “encorajados” pelos media… Olhe-se para o atentado na maratona de Boston: esse tipo foi capa da revista “Rolling Stone” e deu-se muita notoriedade a uma pessoa que fez tanto mal. Mas a minha esperança é que assim se permita conhecer o “background” dessas pessoas, que pais leiam esses artigos e percebam: “Não estou a dar a atenção que deveria dar ao meu filho.” Pode ser que se perceba, através dessas informações, e consigam ensinar melhor os filhos a fazer o bem.

image

é que seu sei que a raiz de mim está em Lisboa

(Fonte: Spotify)

Tags: music spotify

A primeira imagem de Andre 3000, dos Outkast, como Jimi Hendrix no filme “All Is By My Side”

A primeira imagem de Andre 3000, dos Outkast, como Jimi Hendrix no filme “All Is By My Side”

Gisela João: Tudo aquilo que nos chega ao coração

image

                                         (Fotos: Estelle Valente)

Há muita gente de boca aberta com o que Gisela João vai cantando. A fadista nascida em Barcelos lançou, há poucas semanas, o seu primeiro disco a solo, depois de uma experiência na banda Atlantihda. Não nos espantamos só com a voz, corajosa, sólida a qualquer momento. Branda, macia, meio sussurrada quando o fado assim o pede; ou aguerrida, brava e explosiva se o serviço ao fado assim o exige. Há também as palavras escolhidas de Ary, de Linhares Barbosa ou Vieira Pinto e o peso com que Gisela as atira que fazem deste álbum homónimo uma daquelas coisas bonitas que vale descobrir - e ajudar a descobrir-se. 
Gisela pensou ser designer de moda. Ainda estudou para isso. Mas o fado meteu-se no caminho e agora atropela-nos com uma genuinidade que é quase impossível não notar. Não tem nada que saber, como o “Bailarico Saloio”: “um pé no ar, outro no chão a bater”- é pôr a tocar, fechar os olhos e sentir. Esta é a conversa completa com a fadista, a que deu origem à entrevista publicada no jornal METRO.

Há dois anos, quando a ouvi nos Atlantihda , disse-me, muito decididamente, que aquele não era um projecto de fado. Mas na altura já se sentia que a sua voz sobressaía no meio da banda e acabava por levar as canções para o fado.
Pois, eu canto fado desde miúda. Andava na terceira classe quando cantei o meu primeiro fado. É inevitável que soasse assim.

E quando é que percebeu que queria fazer do fado uma carreira?
Eu vim para Lisboa há três anos. Se há três anos me perguntassem se achava que era possível estar onde hoje estou, profissionalmente, duvidava. Há quatro anos dizia mesmo que não. Sempre cantei porque era o que gostava de fazer, mas via como um hobby. Há rapazes que gostam de ir jogar à bola uma vez por semana e eu gostava de cantar. Sem querer as coisas foram acontecendo e atropelando na minha vida… eu julgava que ia ser designer de moda.

Foi para isso que veio para Lisboa?
Não, foi por isso que fui para o Porto. Eu sou de Barcelos e quando me mudo para o Porto era para fazer um curso de designer de moda. Mas deu-me a vontade de cantar, fui a uma casa de fado… e foi-se metendo no meu projecto de vida. Eu tinha arranjado um trabalho durante o dia e depois à noite cantava. O curso acabou por ficar em águas de bacalhau, mas um dia ainda o hei-de tirar. Ainda faço as minhas roupas e muito artesanato, mas a música passou a tomar mais conta. Quando venho para Lisboa é que foi por causa da música.

Como foi?
A Maria da Fé fez-me um convite para ir para o [restaurante] Senhor Vinho e pensei: “agora vou tentar a sério”. Não era um convite qualquer.

Essa experiência da casa de fado mudou a sua forma de olhar para o fado?
A minha visão do fado é sempre a mesma. E que eu não consigo explicar o que é: é uma coisa muito forte que sinto cá dentro e essa experiência veio despoletar mais interesse e curiosidade para ver que é um género musical que tem vida própria e que depende de cada músico, de cada intérprete, de cada ambiente… Imagina que acordas muito bem-disposto, mas vais para um sítio onde não gostas de estar: fazes o trabalho que tens para fazer, mas não estás livre. O fado é um género musical que vive muito disso: se estás numa tasca ele corre de uma maneira; se estás numa casa de fados, é de outra forma; e em palco ainda é de uma outra maneira.

E o fadista, ou a Gisela, neste caso, não tem mãos naquilo que vai acontecendo nesses momentos?
Não. Porque é muito de sensações, de olhares… eu não gravei o meu disco em estúdio por causa disso, por causa dessa orgânica que me faz falta, o poder olhar para os músicos, senti-los, poder estar à vontade para poder andar ou saltar se me apetece enquanto estou a cantar. Tudo flui melhor. Nesse sentido, a casa de fado fez-me aprender: ver os meus colegas a cantar, cada um com o seu cunho. E fez-me perceber que não tem sentido fazer as coisas como alguém já fez ou faz.

E percebeu o que tinha de fazer diferente de todos os outros?
Na casa de fados consegui perceber que cada um tem mesmo o seu registo e não adianta tentar fazer igual ou parecido porque é impossível. Mais vale fazer como sabemos e evoluir dentro desse projecto.

image

Neste disco há uma palavra muito presente: saudade. Sendo a Gisela de Barcelos, tendo ido nova para o Porto e mais tarde para Lisboa, fez com que esta palavra tenha ganho um novo peso e tenha influenciado o seu fado?
É curioso: eu saí de Barcelos com 17 anos. Tenho muito o espírito de ir sem medo. Mas sou muito saudosista. A conotação é um bocado má, mas não sei qual é a maldade. Eu não tenho vergonha de admitir que tenho saudades dos meus tempos de infância. Quem é que não tem saudades de alguma coisa? E estar aqui em Lisboa faz-me ter saudades dos meus amigos, da minha avó, dos meus irmãos, dos meus pais. E isto no disco tem mais que ver com o facto de ser mais tudo à volta do amor. Eu acho que o amor causa muita saudade: há um ensaio sobre a saudade que diz que “a saudade não é mais que o excesso de amor em relação a algo”. Está sempre ligado ao amor. Para mim esse é o princípio de tudo e não falo do amor entre casais: eu amo esta flor. Eu amo os meus amigos. A saudade acaba sempre por aparecer.

Apesar de o disco ter momentos bastante eufóricos – talvez a sua costela minhota a falar em canções como “Bailarico Saloio” e “Malhões e Vira” – existe também uma carga muito fatal nas poesias que cantam esse amor de que fala.
Não é fatal. É intensa! Não gosto de dizer fatal.

Não gosta porque acha que não é fatal ou não quer que seja fatal?
Eu não gosto de ver a vida como trágica e fatal. E também não gosto de olhar para os poemas assim. Gosto de pensar no porquê. Neste disco há um que é um dos mais intensos – ou fatais, como estavas a dizer – que é o “Maldição”. É um constatar de um facto, uma conversa com o meu coração. “Que destino, ou maldição / Manda em nós, meu coração / Um do outro assim perdidos”: estou a constatar que a minha vida não consegue sair daquilo, mas não estou a dizer se estou triste ou estou alegre

Até porque canta ainda: “Canto e choro todo dia, Sou feliz e desgraçada”.
Sim. Só estou a constatar um facto. A carga é que é pesada, intensa. Não é triste…

Há outro tema, “Voltaste”, que, sendo supostamente um tema mais feliz por marcar o reencontro de duas pessoas, não perde a tal… intensidade.
Sim, porque há um reconhecimento: “Antes mentiras contigo do que verdades sem ti”. Eu já sei que aquela pessoa me vai dizer mentiras, mas ainda assim quero tê-la a meu lado. É quase uma entrega, uma aceitação que não consigo viver sem aquela pessoa para o bem e para o mal.

Reparei que a Gisela também gosta de abrir espaço para as guitarras tocarem no seu disco. Seja num solo mais prolongado no longo “Madrugda Sem Sono”; seja num tema só instrumental (“Canto de Rua”). Agora olho para o seu braço percebo que tem uma tatuagem de uma guitarra portuguesa… é uma apaixonadas por guitarras?
Muito! E depois o disco pode dizer que é só da  ”Gisela João”, mas na música não há espaço para egos ou só para mim. Não: há uma coisa acima de mim que é a música e eu tenho de a servir. Só que sozinha não o consigo fazer. Se os guitarristas não estiverem livres e a tocar à vontade eu também não o vou conseguir fazer. Acho que era o Fernando Pessoa que dizia algo como o fado é a poesia ajudada. E se pensarmos bem… há coisas que lemos e está a ser difícil ler, mas se encaixarmos numa música qualquer que se conheça, aprende-se melhor. Tal como a tabuada que se aprendia melhor quando era cantada. Eu não toco nada, portanto preciso mesmo dos músicos e gosto muito de os ter a meu lado.

O tema “Canto de Rua” é de Carlos Paredes. Porquê?
A música tem uma dinâmica muito curiosa: leva-nos a sentir momentos de quase euforia, outros mais melancólicos e a finalizar outro pico de histeria. Pensei em fazer outras, mas era mesmo esta que queria ter no disco. E até está colocada a meio do disco para poder haver uma respiração entre poemas para tentar surpreender as pessoas. 

E como foi a escolha dos poemas e dos textos? Tentou espelhar ao máximo aquilo que que é?
Sim, mas não é muito por aquilo que sou, mas antes por aquilo que me faz sentir alguma coisa. E por isso leva-me a ser o mais de mim que existe. Sentei-me um dia e comecei a anotar canções e poemas. Quando dei por mim tinha uma lista de uns cinquenta e tal. Mas não podia gravar um disco triplo (risos). Tive de escolher, mas foi um filme: sentava-me em frente aos poemas e começava a arranjar desculpas para não ter de fazer aquilo! Até que um dia o Frederico [Pereira, produtor] ligou-me, disse-me que estávamos a ficar sem tempo, e levou-me para a praia para escolher… Custou muito, fartei-me de chorar porque não conseguia. Mas aos poucos e poucos ficámos com estes.

Escolheu mais com a razão ou com o coração?
Sem dúvida que com o coração. Não consigo trabalhar com a razão. É claro que há sempre uma dose de razão, mas não pode ser nunca o meu factor número um para as decisões. Acredito que há pessoas que fazem ao contrário – a minha irmã, por exemplo!

Há quem tenha medo de usar só o coração.
Noventa por cento da população mundial! Hoje em dia, com tantas máscaras: o mundo pede tanto de nós que temos medo de mostrar como realmente são e sentem. Eu não tenho medo nenhum: se me apetecer dançar no meio da rua, danço, se me apetece cantar quando estou a fazer compras no supermercado, canto… os meus amigos riem-se de mim, há pessoas que julgam que eu sou maluquinha, mas eu só estou a fazer o que me apetece. E é o que toda a gente devia fazer!

Há uns meses fez um concerto no Lux com o Nicolas Jaar. E neste disco, para lá dos textos tradicionais, tem uma adaptação de um poema tradicional feita pela Capicua. Também na música faz o que lhe apetece ou tem pruridos de experimentar coisas novas?
Nada! Senão não tinha estado nos Atlantihda ou tinha feito esse concerto com o “Nico”. Eu acho que na vida não devemos recusar nada que não conhecemos ou experimentámos. Tu precisas de comer chocolate para saber se gostas! Na música é um bocado a mesma coisa: sei o que quero fazer e o que quero experimentar. Depois, se me aparecem propostas, vou ver se encaixa ou se não encaixa. Nem que seja para bater com a cabeça e dizer “olha fiz merda”. Mas aprendi algo.

image

Como tem lidado com as críticas ao seu trabalho? Existem sempre as comparações com Amália Rodrigues e há uns dias, Miguel Esteves Cardoso escreveu que a Gisela é “a grande fadista do século XXI”.
(sorri) Eu ia morrendo! Bom, eu nunca quero fazer como já alguém fez… claro que quando comecei era completamente “Amaliana”: vivia em Barcelos, não havia nada de fado em minha casa e a Amália foi a primeira coisa que me chegou… Tento relativizar, claro. Mas para mim não me interessa muito: tenho é de trabalhar, de me concentrar e melhorar sempre naquilo que eu faço. As comparações e as críticas assim tão boas até assustam-me um bocado: cria expectativa nas pessoas e a imaginação não tem limites… lembro-me da primeira vez que fui a Florença: a imagem que me passavam é que era uma cidade linda, linda de morrer. Quando fui lá, era realmente muito bonito, mas não houve deslumbramento… tenho medo que essas coisas me aconteçam a mim!

Num dos seus fados a Gisela canta que não é fadista quem quer, mas quem nasceu fadista. O que é que distingue um fadista?
Não sei… mesmo. Há um senhor que é taxista e que aparece às vezes na tasca da Bela. Ele não tem uma voz por aí além, mas quando canta deixa-me com os olhos vidrados, emocionada. Porquê? Não sei… mas há ali qualquer coisa que me encanta.

O segredo não está só na voz.
Não está mesmo. O peso das palavras é muito importante, aquilo é mesmo sentido e faz chegar ao coração. Já houve meninas, nas tascas, que me pediram para as ensinar a cantar fado. Mas eu não sei como!