The Child Of Lov: «Gosto da “sujidade” do funk»

O véu tem vindo a ser levantado com o passar dos meses. Quando ouvi falar em The Child of Lov pela primeira vez, por alturas de Fevereiro, foi quando me chegou ao email (via editora, que eu não sou trapaceiro) este primeiro disco de Cole Williams. Nem sabia o nome. Estava tudo muito no segredo dos deuses. Fotos, muito poucas. Mas deu para perceber, pela construção - próxima do registo do hip-hop, em camadas, com vários samples - que era trabalho de um homem só. Fiquei impressionado e intrigado: escutava trip-hop, soul, algum funk - pouco evidência. Apenas ia sentindo que estava lá tudo na raiz do trabalho de Cole. Da voz, passando pelos baixos pesados até ao uso dos ritmos. Ao ouvir, deixei de estranhar a participação de Damon Albarn, DOOM e Thundercat na ajuda à produção. Mas como é que um miúdo que parecia vir do Zuidoost de Amesterdão se chegava assim a três ícones (meus) da música?
Falei com Cole Williams por Skype em meados de Fevereiro. Na altura, julgava que ia poder ver-lhe a cara, mas tapou-me a câmara. Não me disse a idade (sei hoje que tem 25). E disse que íamos ficar a conhecer-lhe a cara em breve - até por causa dos concertos (“Não há volta a dar!”). E hoje tenho certeza que é já um dos melhores discos do ano.
Ainda se lembra de como começou a fazer música?
Eu não venho de uma família muito musical, ou daquelas em que toda a gente tocava qualquer coisa… a minha mãe teve aulas de música, de facto, em miúda. E havia um piano lá em casa. Mas era mais uma peça de mobiliário. Eu acho que comecei a interessar-me por tocar piano quando tinha uns 14 anos e, curiosamente, para criar “beats”. Eu ouvia, nessa altura, muito hip hop… acho que uma coisa acabou por, consequentemente, levar à outra, sabes?
Mas a ligação ao piano fez com que se tivesse interessado pelos ambientes clássicos e, ao mesmo tempo, pelo hip hop?
Acho que é a melhor forma de o dizer, de facto. Os primeiros discos que me lembro de fazer “diggin’” foram os discos do Stevie Wonder. Era o único disco que soul que a minha mãe tinha e era um de “greatest hits”. Acho que a paixão dos dois mundos vem daí: de Stevie Wonder.
Os dois géneros, o da soul e funk, com o hip hop parecem misturar-se muito bem. E cada vez (re)cruzam-se mais.
A música negra vem toda do mesmo sítio. O hip hop começou, de certa forma, com o James Brown, no fim dos anos 70. O produtor Dam Funk disse uma vez que o funk é o quarto escuro da pequena casa que é a soul. É o buraco mais escuro, mais sujo, mais fedorento dessa casa. Acho mesmo que o soul, o funk e o hip hop estão todos interligados.
Portanto: o Cole começou a escrever as suas primeiras canções na adolescência. Como é que aparece o seu primeiro disco? Já o vem trabalhando há muito tempo? Não sei bem quantos anos tem…
Bem… digamos que estou com vinte e tal! Relativamente às canções, eu já tinha algumas coisas há algum tempo. Quando assinei contrato com a editora [Domino] já tinha uns 13 ou 14 – nem sei se lhe posso chamar canções – ideias. Depois disso percebi que as coisas tinham ficado sérias (risos)… quer dizer: eu nunca tinha feito nenhum concerto, misturado ou produzido. Claro que já tinha feito outras coisas, mas não pela lógica de entregar um produto a alguém a troco de dinheiro!

As coisas acabaram por ficar muito sérias… neste disco de estreia trabalhou com o Damon Albarn, DOOM, Thundercat… gravou nos famosos Studio 13 - do Damon. Estamos a falar de três indivíduos com uma visão muito definida na música que devem ter visto algo de muito especial em si. Mas como é que chegou ao diálogo com estes tipos
Ainda é um pouco louco para mim. Às vezes acordo a pensar nisso: como é que um tipo como eu acabou a cozinhar músicas com esta gente! O meu agente costumava ser o agente do Danger Mouse, há uns anos. E foi na altura em que o Danger Mouse co-produziu um disco dos Gorillaz, o “Demon Days”, que o meu agente conheceu o Damon. E foi assim que ele acabou por descobrir a minha música. Ficou intrigado, perguntou coisas sobre mim, sobre as minhas origens… e as coisas começaram a ganhar outra cor, ele foi muito hospitaleiro nos estúdios e foi incrível trabalhar com ele.
Mas e qual é a importância destes três músicos na criação do seu disco? Ensinaram-lhe muito ou apenas entraram para o processo que já tinha formatado?
Bom, eu já tinha produzido o disco. Já estava praticamente terminado. Estava bem claro o que ia ser. No caso do Damon, achei por bem dar-lhe uma carta branca para experimentar coisas na produção, “go wild”, e depois eu via se gostava ou não. E com o DOOM e o Thundercat foi a mesma coisa: dar a estas pessoas o espaço que precisavam para trabalhar e criar. É assim que nasce o melhor trabalho deles.

Há uma coisa que gosto bastante na sua forma de trabalhar: fez um disco que não é polido. Tem ruídos, é sujo. Há algum fascínio por esse conceito mais antigo, do uso de material velho?
Eu vejo o que dizes como um grande elogio, porque trabalhei com as merdas mais inúteis e baratas que consegues encontrar. Eu cresci com pouco dinheiro. Não era o típico miúdo de classe média que começou a ser DJ. Eu gosto muito do álbum “Voodoo”, do D’Angelo. É talvez o disco que eu mais ouço porque gosto do som cru do disco. E quis produzir esse som analógico, mas com o uso do computador. Foi isso que fui à procura. Gosto de me levar aos limites e uma das formas é usar os equipamentos com que é mais difícil trabalhar, porque são fracos! Com as coisas boas podemos afundar-nos em múltiplas possibilidades…
É quase uma tentação encher as músicas de pistas e de camadas.
Sim, sem dúvida. E repara: hoje as pessoas quando querem aprender a tocar guitarra vão comprar uma Fender Stratocaster logo na altura. Quando quis aprender a tocar baixo, comprei o baixo mais barato que encontrei, cor-de-rosa… custou uns 100 euros. Se conseguir tirar dali o som que estou à procura, então posso passar para os instrumentos mais caros. Mas ao contrário a equação já não funciona assim.
Sem considerarmos apenas os instrumentos – sejam Stratocasters ou Rickenbackers: agora que já fez um trabalho com esta sonoridade mais crua, o próximo passo é fazer algo mais polido ou quer marcar este conceito?
Eu gosto desta “sujidade” do funk. Aquilo que se ouvia nos discos do Sly And Family Stone: ando meio obcecado com o disco “There’s a Riot Goin’ On”: foi feito sozinho pelo Sly Stone, no quarto dele, a fazer overdub aos instrumentos! Tem um som de merda – é muito cru e acredito que a editora deve ter ouvido aquilo e deve ter dito: “o que é isto?”. Mas há ali muita honestidade. Gravar assim é a forma ideal para canalizar a minha música. É o que vou tentar fazer: acho que nem vou tentar ir para um estúdio!
Há um lado cénico que desperta muito a curiosidade sobre quem é Cole Williams aka The Child of Lov. Agora já se vão vendo algumas fotos, mas, no início, preferiu não expor a sua imagem… Porquê?
A música teve de vir sempre primeiro. Pareceu-me a coisa mais acertada sobretudo num momento em que no mundo da música há tantos exemplos de a imagem e uma cara bonita ser mais importante do que o som. Mas não vai ser sempre assim: aliás, já tenho fotos minhas em que mostro a cara. Com os concertos não dá muito para fugir, não é?

E como vão ser, então, os concertos?
Já encontrámos uma banda para tocar as canções. Agora é ensaiar bastante as músicas. Temos algumas sessões marcadas para Inglaterra, coisas de rádio e tudo mais.
Como fã, confesso-lhe que gostava que viesse a Portugal!
(risos) Adorava. Nunca estive aí, mas sei que o tempo é bem melhor do que aqui no Norte da Europa!












